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TODOS OS DIAS, O 2.º A DA ESCOLA DE VALE DA AMOREIRA TEM UMA HORA DE CRIOULO

Destaque para um artigo de Bárbara Wong, publicado no Jornal Público

Este artigo que transcrevemos e lançado pelo jornal Público, do passado dia 29, discorre sobre um dos efeitos das migrações nos países de acolhimento, neste caso um fenómeno cultural.

A professora do 2ª A da Escola de Vale da Amoreira, cabo-verdiana, é membro do FASCP - Fundo de Apoio Social de Cabo Verde em Portugal, uma associação de solidariedade social, inicialmente criada para o apoio à comunidade cabo-verdiana mas que hoje trabalha com todas as comunidades migrantes e é uma ONG parceira da INDE no âmbito das suas acções de cooperação para o desenvolvimento.

Experiência bilingue vai durar mais dois anos. Os primeiros resultados são positivos. Em Portugal, falam-se 80 línguas diferentes

Ana Josefa, professora de Português da Escola Básica 2/3 do Vale da Amoreira, perto da Moita, entra na sala com uma cartolina com o corpo humano desenhado. Dá as boas tardes e apresenta os jornalistas do PÚBLICO. Fátima, Eduardo, Telmo e Janice viram-se para trás, curiosos e imediatamente Eduardo pergunta em crioulo: "Como é que se chama?". As vozes dos meninos de sete e oito anos começam a sobrepor-se umas às outras, curiosas e em língua cabo-verdiana perguntam: "Que idade têm?", "São da televisão?", "Ó professora, porque é que não nos disse que tínhamos visitas?". O 2.º A da básica do 1.º ciclo do Vale da Amoreira é uma turma bilingue, todos os dias têm uma hora de aula de crioulo.

Eduardo, Catarina e Inês são três dos nove meninos que em casa só tiveram contacto com a língua portuguesa. O resto dos 22 alunos é constituído por crianças nascidas em Portugal mas com diferentes ascendências: metade tem raízes cabo-verdianas, há ainda uma menina de origem angolana e José, filho de pai guineense e mãe marroquina. "É uma turma com uma vivência cultural muito rica", revela Ana Josefa, a professora que diariamente está com o 2.º A para ensinar Estudo do Meio em crioulo. O Português e a Matemática ficam a cargo da professora.

O projecto Turma Bilingue faz parte da investigação de Dulce Pereira, do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, está a ser desenvolvido desde o ano lectivo passado e tem a duração de quatro anos. As primeiras conclusões vão ser apresentadas durante o seminário sobre Metodologias e Materiais para o Ensino do Português como Língua Não Materna, na Gulbenkian, em Lisboa, hoje e amanhã.

Nível cultural superior

Existem "efeitos positivos" a nível da biliteracia, enuncia Dulce Pereira. As crianças começaram a escrever em crioulo antes do tempo previsto, ou seja, o ano passado já o faziam, quando ainda estavam a aprender a ler e a escrever em português. "Não se confundem", garante Ana Josefa.

Além do 2.º A, existe o 2.º B, que serve de turma de controlo - aprende exactamente o mesmo, excepto o crioulo. No final dos quatro anos, pretende comparar-se os resultados escolares e perceber se houve benefícios em constituir a turma bilingue, explica Dulce Pereira. Para já, Ana Josefa defende que o 2.º A tem um nível cultural superior ao 2.º B, os meninos têm conhecimentos que se não fosse as aulas de crioulo dificilmente seriam partilhados, justifica.

Na sala de aula, Ana Josefa conta uma história sobre o corpo humano. A professora propõe que quem não saiba uma palavra pergunte. A primeira interrupção faz-se quando a professora lê stamgu. Catarina, de cabelo escorrido, sabe: "É estômago!". "Éestôgamo?!", ri-se Fátima, com centenas de trancinhas a balançar na cabeça.

A leitura continua e, no final, cada aluno tem de traduzir para português uma parte do texto. Wilson tenta dar uma ajuda a Telmo mas não consegue e Miriam acaba por recontar uma parte da história em português. Agora é a vez de Axel e Ailton, que se esforçam para conseguir dizer as frases correctamente.

É tempo de fazer uma banda desenhada e escrever legendas sobre o conto. Palavras como mãos, pernas, cabeça e outras mais difíceis são perguntadas às professoras. ""Desenrascar" é "disgadja"", diz Ana Josefa. José ajuda Edna e Júlio a escreverem. Massuira é a primeira a terminar a banda desenhada, secundada por Catarina, que teve tempo para pintar. Alguns já lêem para os pais, felicita-se a docente, depois de Fátima lhe emprestar um livro para ler em casa.

Adaptado daqui.

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